A Química do Sono

A cultura popular gosta de enfatizar a relação entre o sono, o bem-estar e o sucesso, resumida naquela frase clássica “Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”. Admitindo que existe alguma verdade nisto (e que a máxima se aplica a todos, independentemente da idade) como é que a ciência o explica?

O sono é um tema fascinante para a ciência porque envolve imensos fatores e mecanismos, da anatomia cerebral à atividade neurológica e aos ritmos circadianos. E a maior beleza está no facto de, mesmo acumulando muitíssimo conhecimento sobre o sono, haver sempre alguma coisa nova para aprender!

Equilíbrio Hormonal

Uma das funções mais vitais do sono é que ajuda a restabelecer os níveis de hormonas, o que tem um impacte significativo no nosso bem-estar e saúde. Por isso, no fim de contas, dormir tem menos que ver com “recarregar baterias” como costumamos dizer de cada vez que sentimos que precisamos de parar e descansar, e mais com “recarregar” os nossos níveis hormonais.

Na verdade, o sono afeta praticamente todos os tipos de tecido e sistemas no nosso corpo – do cérebro, coração e pulmões, ao metabolismo, função imunitária e humor – e as hormonas, enviando “mensagens” para o cérebro e órgãos do corpo, controlam grande parte do processo.

As hormonas relacionam-se com o sono de várias maneiras. Fazem-nos sentir com sono à noite e despertos de manhã. Estimulam o nosso sistema imunitário, ajudam-nos a crescer, abrem-nos o apetite e até influenciam os nossos sonhos! Na verdade, há uma reciprocidade: as hormonas afetam o sono, e o sono, por sua vez, afeta a regulação e a libertação hormonal.

O despertar

Pense na melatonina, por exemplo. Provavelmente terá ouvido falar desta substância porque é um indutor de sono muito popular, vendido em farmácias (sob forma sintética). Na verdade, a melatonina é uma hormona natural produzida pela glândula pineal, localizada no centro do cérebro. Durante o dia, a glândula pineal está inativa. Mas assim que as luzes começam a apagar-se, esta glândula “acorda” e começa a produzir melatonina (agora já sabe porque é que também é conhecida como o “drácula” das hormonas). A melatonina é libertada no sangue, começa a sentir-se mais calmo e menos alerta, até que o sono chega naturalmente… a menos, claro, que seja sexta-feira à noite e tenha outros planos!
Enquanto dorme, os níveis de melatonina mantêm-se elevados, até que voltam a descer para níveis mais baixos com a luz do dia.

Se a melatonina ajuda a adormecer, outra hormona, o cortisol, faz precisamente o contrário, funcionando como um sinal de alerta 100% natural. Se não estiver demasiado stressado, os níveis de cortisol descem quando chega a hora de dormir, vão aumentando gradualmente durante a noite e atingem o pico de manhã, mesmo antes de acordar.

Depois de uma boa noite de sono num colchão perfeito, vai começar a sentir-se ativo e cheio de energia. E com fome, também, porque o cortisol envia uma mensagem ao seu cérebro que diz bem alto “Era capaz de comer o mundo!”, enquanto outras duas hormonas, que também libertamos durante o sono (grelina e leptina) estão programadas para regular o nosso apetite. A grelina, por exemplo, estimula a fome, e enquanto dormimos os seus níveis mantêm-se baixos, inibindo a fome. Consequentemente, se dormirmos pouco, ou mal, podemos ter tendência para comer mais.

Por último, mas não menos importante: o sono é essencial para o crescimento. Por isso é que os bebés dormem tanto e por isso é que é tão importante para as crianças dormirem bem. Os adultos também produzem esta hormona, embora no seu caso seja importante apenas para reparação de tecidos.

Dor e prazer

Já alguma vez pensou porque é que alguns sonhos são tão bons? Bem, talvez porque podemos viajar grátis para sítios fantásticos, ou porque revemos amigos e pessoas queridas de quem temos saudades. Mas também pode estar relacionado com as hormonas, já que, enquanto dormimos, o nosso corpo produz oxitocina, também conhecida como “hormona do amor” que atinge o seu pico após 5 horas de sono.

Produzida no hipotálamo, a oxitocina dispara no parto, na amamentação e no comportamento social, criando ligações mais fortes, e também pode influenciar os sonhos, tornando-os especialmente doces. Pelo contrário, o cortisol, a “hormona do stress” (que também tem alguns aspetos positivos como manter-nos alerta e despertos) pode ter uma influência negativa nos sonhos. Por isso reduzir o stress é tão importante, mais uma razão para não deixar demasiado cortisol a circular dentro de si!

O sono também ajuda a estimular a prolactina, que tem um papel importante na regulação do metabolismo e do sistema imunitário. Para se manter equilibrado, durma bem, a menos que queira ficar menos resistente e com dificuldades de concentração.

O sono do amor

A ciência fornece imensas pistas muito elucidativas sobre a relação entre o sexo e o sono. Finalmente sabemos porque é que os homens caem para o lado poucos minutos depois do ato sexual! Aparentemente, não tem nada a ver com uma repentina falta de interesse.

Mais uma vez a resposta está nas hormonas que os nossos corpos libertam durante a relação sexual. Depois do orgasmo, um cocktail de hormonas de prazer e neurotransmissores como as endorfinas inundam o nosso cérebro, deixando-nos cheios de vontade de dormir. Durante o sexo, os níveis de oxitocina aumentam e por isso existe uma sensação tão forte de ligação, ao mesmo tempo que os níveis de cortisol baixam, deixando-nos muito relaxados. O resultado: muito amor para dormir como uma pedra!

Enquanto está cientificamente provado que o sexo provoca um estado muito agradável e relaxado que promove o sono naturalmente, a verdade é que afeta homens e mulheres de maneira diferente. Nas mulheres, níveis mais altos de estrogénios irão afetar o ciclo de REM e resultar num sono mais profundo. Os homens, por outro lado, irão produzir mais prolactina, conhecida por produzir uma sensação de cansaço (já agora, os níveis de testosterona aumentam durante o sono).

O sexo afeta o sono, não há dúvida. E vice-versa. Estudos indicam que, pelo menos para as mulheres, mais sono significa melhor sexo. Um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine concluiu que uma maior duração do sono estava relacionada com um maior desejo sexual nas mulheres, e um aumento de 14% na probabilidade de ter atividade sexual no dia seguinte.